segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Coronel Santos e Castro e os Comandos Especiais em Angola



Recebi de um amigo português a foto de um busto de bronze que me remeteu ao passado e às lições -e exemplos- de Honra e Glória que me foram repassadas por meu comandante de muitos combates, o homem representado no pedestal em um quartel em Oeiras, Portugal. Tenente Coronel Gilberto Santos e Castro. Um dos fundadores dos Comandos em Portugal, não teve dúvidas em devolver sua farda ao famigerado, traidor e covarde exército dos capitães de abril logo após a Revolução dos Cravos e empenhou-se na luta para tentar livrar as províncias portuguesas em África do jugo do marxismo e da ocupação por russos e cubanos. Tive a honra de lutar ao seu lado. Apesar de sua idade e do posto, trocamos turnos de sentinela no Morro da Cal, quando éramos pouco mais de 20 homens* a segurar a frente norte da guerra civil em Angola, na noite após a Batalha de Quifangondo. Fui um dos dois dentre 156 Comandos Especiais provados na luta, escolhidos para compor seu Staff na Europa e pude partilhar de suas ideias e ensinamentos. Deixo abaixo trechos do prefácio que ele escreveu para meu livro “Angola,comandos especiais contra cubanos” posteriormente atualizado em "A opção pela espada". Nas palavras, poderão sentir sua força:


...Estamos em Agosto de 1975. Um pequeno grupo de portugueses desembarca em Angola para ajudar a impedir a sua entrega ao colonialismo soviético. Eram poucos. Iriam porém, mostrar em valentia sem par e altruísmo sem preço, a vontade de todo o povo real que, perplexo e traumatizado, estava incapaz de reagir à mais aviltante farsa de toda a sua História. Em nome de um povo imaginário e de liberdades paranoicas — aliás tolhidas a cada passo em pesados preços de sangue e de fome — todos assistimos à maior mentira do século: a "independência" de Angola.

O que pensa realmente deste facto trágico o povo português e desgraçadamente o que pensará o povo de Angola? Foi um grupo pequeno que se bateu contra isto tudo. Merecem por isso o respeito e a consideração de todos os portugueses. Por se terem batido e porque se bateram bem. Alguns pagaram cara a sua dádiva. E quando no pequeno cemitério do Ambriz desceram à terra, com toda a população a assistir em religioso silêncio, com as honras devidas e cobertos com a Bandeira Portuguesa, repetia-se apenas o que ao longo dos séculos acontecera. Mais uma vez aquela terra acolhia generoso sangue português. Ali estivemos também, meditando e sentindo mais vontade para continuar.

Eu próprio comandei os combates que os Comandos Especiais travaram contra os cubanos em Angola, durante os meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1975...

Visto à luz da História, os Comandos Especiais eram em número ridiculamente pequeno. Apenas um punhado de homens: pouco mais de uma centena e meia. Vieram de todos os cantos do mundo. Alguns tinham já sido Comandos, ao tempo da sua vida de militares em Angola ou em Moçambique. Vieram espontaneamente. Nada lhes foi oferecido, e eles nenhumas condições impuseram. Claramente lhes foi dito que os Comandos Especiais iriam apenas ser a resposta altiva dum punhado de portugueses à cobardia e à traição dos que entregavam a Pátria às potências estrangeiras. Vieram por sua própria e livre iniciativa, na louca esperança de ainda salvar o nosso povo duma desonra afrontosa e de uma perda irreparável.

Logo no primeiro recrutamento surgiram aqueles que iriam constituir a mais extraordinária, a mais inconcebível, a mais desesperada força militar que alguma vez se propôs fazer frente ao império comunista: 156 homens dispondo de reduzidíssimo armamento, dependendo quase que exclusivamente de si próprios, pois o apoio logístico era praticamente inexistente.

Na realidade a acção desse punhado de homens começou no Verão de 75. O "Verão Quente' de Angola.

No entanto todo o esforço desesperado desses homens que quiseram defender Angola do inimigo soviético se perdeu. Ingloriamente, diga-se. Por vil traição.

Muita gente me tem perguntado por que não entramos em Luanda, quando a imprensa internacional chegou a noticiar que estávamos à vista da cidade no dia 10 de Novembro, precisamente no morro fronteiro ao Cacuaco.

Esses heróis que se chamaram Comandos Especiais fizeram tudo quanto puderam. Lutando com desespero contra o tempo, conseguiram de facto chegar à vista de Luanda antes da data da independência, levando de roldão à sua frente as sucessivas vagas de cubanos que se interpunham entre eles e a capital. Se a tivessem conseguido atingir antes do 11 de Novembro, tê-la-iam tomado, e não seriam as guarnições cubanas, inadaptadas para a guerrilha urbana, numa cidade que desconheciam e temiam, que o poderiam ter impedido.

Mas entraves de toda a ordem condicionaram a ofensiva sobre Luanda, desde o não consentimento de manobras de diversão ou alterações de frente, até ao atrasar sistemático do assalto à cidade na sequência da primeira arrancada que em 48 horas nos levou do Ambriz ao Caxito... para nos quedarmos mais de vinte dias sem gasolina. As pressões que se exerceram sobre Holden Roberto — constantemente mal esclarecido e enganado — no sentido de fazer coincidir o início do assalto com a véspera do dia marcado para a independência, funcionaram deliberadamente para que não entrássemos em Luanda. A artilharia abandonou as posições sem qualquer aviso e exactamente quanto mais dela carecíamos para o assalto ao Morro de Quifangondo o qual, uma vez tomado, abriria o caminho para a cidade em terreno plano e sem obstáculos. Por tudo isto não ocupamos Luanda. Foi-nos retirado o apoio de fogo pesado dos dois obuses de 140, abandonados mais tarde em Ambrizete e transformados em massas de ferro inútil porque as suas guarnições — evacuadas de helicóptero — levaram as culatras...

Ali ficamos sob intenso fogo do inimigo. O barulho da onda de mísseis parecia uma terrível e contínua trovoada. Os Comandos Especiais ficaram colados ao terreno e impedidos de dar resposta.Ali ficou só um punhado de Comandos Especiais no dia 10 de Novembro, véspera do dia fixado para a independência. Tudo havia retirado. Do nosso posto de observação sobranceiro à cidade que não havíamos podido alcançar, vi sair do porto de Luanda a fragata que levava as autoridades portuguesas. Eram quatro horas e meia da tarde do dia 10 de Novembro de 1975.

Os Comandos Especiais olharam o silencioso afastamento daquela fragata que levava no convés apinhado de gente os últimos restos de uma presença de cinco séculos. As lágrimas de raiva e de impotência rolaram pelas faces dos Comandos que o sol de Angola curtira. A fragata lançou ferro no limite das águas costeiras e ali ficou parada até à meia noite. Num arremedo de macabra farsa, à meia noite em ponto, esse navio da Armada Portuguesa iluminou em arco e salvou a terra...Depois, como que num silêncio de vergonha, fez-se ao largo.

Gilberto Santos e Castro


Com dois heróis: o Comando Nelson, morto em combate e o Coronel Santos e Castro.
 Morro dos Asfaltos, Angola.


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* Atualização, (2017). Foram 26 homens a manter o Morro da Cal, 23 portugueses e 3 brasileiros: eu, e dois gigantes de coragem, bravura em combate, competência e dedicação na luta anti comunista, atuação mantida sob sigilo até agora e já falecidos. Tendo tomado conhecimento que a informação foi desclassificada e tornada disponível para consulta pública, deixo aqui seus nomes em merecida homenagem, já que nesse pobre país são tidos como torturadores covardes(!!!) por sua atuação em cumprimento do dever, debaixo de ordens do Estado, no combate ao mesmo nefasto inimigo que lá em terras africanas enfrentávamos. José Paulo Boneschi e Theobaldo Lisboa. Em meu livro "A opção pela espada", Boneschi é identificado como "Major André" e  Theobaldo é o "Gordo". Dois "covardes" segundo a esquerda brasileira, um, Theobaldo, foi o que placidamente dormiu debaixo da saraivada de mísseis na épica Batalha de Quifangondo enquanto aguardava as ordens de avançar e Boneschi foi um dos poucos que cruzaram a ponte do Panguila debaixo de fogo, embora não fosse seu dever, mas o fez instado pelo sentimento de camaradagem a nós que aos poucos estávamos sendo dizimados logo à frente.

A eles, Boneschi e Theobaldo, e ao Coronel Santos e Castro, Homens que me honraram  com sua amizade e camaradagem debaixo de fogo, meu respeito e minhas homenagens. Foi um privilégio compartilhar com eles momentos únicos, só reservados aos que ousam.

pedro marangoni



Em Ambriz, o brasileiro José Paulo Boneschi (de camuflado) e Alves Cardoso

Ataque à Radio em Luanda, um bombardeio verde-amarelo: Boneschi (em traje civil), Theobaldo
 (com boina vermelha), e eu (ainda vestindo o arnês do paraquedas). Eles prepararam os explosivos; eu lancei.

José Paulo Boneschi

Um trabalho honesto e detalhado sobre esses brasileiros que lutaram ao lado da FNLA é a dissertação acadêmica da jornalista Gisele Lobato, sob o título "O Brasil e a independência de Angola (1975):
política externa oficial e diplomacia militar paralela" CLIQUE (PDF) .