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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Livro "Batalha Histórica de Quifangondo", de Serguei Kolomnin




Ao pesquisar cuidadosamente os eventos da Batalha de Quifangondo, o historiador militar russo Serguei Kolomnin preenche quase em definitivo as lacunas existentes nesse momento ímpar na criação de um estado em tempos modernos. Digo “quase”, pois as dificuldades são imensas para romper com as vaidades e interesses pessoais nos relatos desse acontecimento, que hoje tem mais heróis que combatentes na época. Cubanos que insistem em viver ainda hoje num mundo irreal que só sobrevive na propaganda que encobre a pobreza atroz trazida pelo comunismo ingenuamente levado ao pé da letra - como na paupérrima Coreia do Norte - exageram seu papel bem no anacrônico estilo stalinista; sul-africanos fantasiam e criam uma “retirada heroica” para encobrir sua vergonhosa deserção em pleno combate; zairenses ficam calados para evitar perguntas constrangedoras e querem esquecer suas desaventuras vergonhosas em Angola; angolanos de ambos os lados relatam verdadeiros contos infantis que me fazem lembrar o nosso herói militar brasileiro Duque de Caxias “com as granadas explodindo nas patas de seu cavalo e com a espada desembainhada, gritando: siga-me quem for brasileiro!” Criança, eu lastimava pelo cavalo... As histórias destinadas à formação artificial de um orgulho nacional são geralmente assim forjadas, não resistem a um estudo mais crítico. Tarefa difícil e inútil tanto no Brasil, formado com “tribos” tupis, tapuias, guaranis, italianas, portuguesas, alemãs, japonesas, como nos países africanos, artificialmente construídos pelos países colonizadores e que juntam no mesmo balaio etnias várias, incompatíveis em hábitos, tradições, fisicamente diferentes, algumas inimigas inconciliáveis…                                                       

Portanto, que tal sermos honestos e racionalmente, deixar de lado as grandes e heroicas historietas de nacionalismo puro, empunhando bandeiras ao vento e destroçando o inimigo? Quifangondo, batalha de vital importância para o futuro politico de Angola, foi o improviso da pressa de um lado contra a confortável posição geográfica dos defensores do outro lado, que pelos números do próprio MPLA só morreram uma meia dúzia, no máximo. Provavelmente no mesmo dia deve ter morrido mais gente atropelada em Luanda no caótico trânsito provocado pelos carros abandonados pelos portugueses em fuga para a Europa e guiados por africanos sem experiência…

No livro “Batalha Histórica de Quifangondo”, Serguei Kolomnin busca com eficiência os detalhes, confronta os relatos dos participantes, procurando ser imparcial (mesmo chamando de “internacionalismo puro” o puro intervencionismo soviético e de seus afilhados cubanos). Desfaz com seu trabalho injustiças históricas, como a insistência angolana de menosprezar e mesmo encobrir a decisiva ajuda soviética de última hora para se valorizar e até, usando as próprias definições da Convenção Internacional contra o Recrutamento, Utilização, Financiamento e Treino de Mercenários, corrige a acusação de mercenários, usada por muitos, ao idealista grupo do Coronel Santos e Castro e do Major Alves Cardoso, do qual fiz, honrosamente, parte. Ambos oficiais eram angolanos de nascimento, respectivamente Lobito e Nova Lisboa; Angola ainda era uma província portuguesa, o que justificava a nossa presença nos combates; muitos dos portugueses também eram africanos que jamais haviam posto o pé na Europa e o único que poderia ser considerado um estrangeiro, (mas menos que os cubanos, zairenses, soviéticos) era eu, nascido no Brasil mas com dupla cidadania portuguesa. Nenhum pagamento fora prometido no recrutamento e sim a paga maior: ajudar na construção de um novo país com nossos valores ocidentais. Por isso, sermos confundidos com os aventureiros de língua inglesa que só apareceram no final do conflito sempre nos incomodou. Por isso, devemos agradecer ao nosso antigo inimigo, autor dessa obra, pela honestidade e profissionalismo. Cita também meu relato sobre a deserção sul africana com seus obuses 140 que poderiam nos ter dado a vitória, mas que hoje, em livros e textos, procuram justificar com mentiras patéticas, afirmando que o Coronel Santos e Castro é que os abandonou sem proteção, sendo que sempre, até o final do combate, estivemos alguns quilômetros à frente da bateria de obuses. Transformaram a vergonhosa fuga em uma epopeia digna da 1ª guerra mundial, com os obuses sendo rebocados em estradas enlameadas, sem ninguém entre eles e o inimigo, sendo que só percorreram asfalto até Ambriz! E o General Ben Roos também somou-se à lista de "heróis"...

Mas o facto principal, linha mestra dessa obra, é o papel indiscutível dos BM-21 russos na batalha. Num ousado esforço de pilotos soviéticos, esse equipamento foi transportado por milhares de milhas e colocado pronto para a ação no momento decisivo. E o resultado principal, insisto, foi o psicológico. O maciço bombardeamento, concentrado em nossas posições, criou o pânico na tropa africana, que sendo de fracos valores ideológicos, sem noção profunda de nacionalidade, aterrorizada, só pensou em salvar a própria pele e evitar a todo custo repetir a experiência. Devo lembrar que nós, os Comandos Especiais de Santos e Castro e Alves Cardoso, ao conquistar com facilidade o norte de Angola para a FNLA, fomos várias vezes alvejados pelos 122 através de lançadores individuais, o que não nos causava a mínima preocupação ou danos maiores. O que se viu depois de Quifangondo foi a desmotivação total do ELNA, um caminhar em direção à fronteira do Zaire, enquanto eu comandava um pequeno grupo atrás de pontes destruídas, procurando ser a pedra no caminho dos cubanos, retardando-lhes o fácil avanço.

Mas notei um certo desconforto do General Xavier, angolano, que efetivamente participou do combate, em posição vulnerável na linha de frente e merece nosso respeito. O relato de sua atuação na batalha, no manejo do canhão 76, coincide com as informações repassadas pelo condutor da Panhard 90 atingida, que conseguiu escapar e posteriormente fez parte de minha tripulação até o final da guerra no norte. Mas acredito que o general não apreciou a falta de colorido nacionalista angolano no livro do aliado Kolomnim! Também não concordou com minha opinião sobre a ineficiência do 122 como arma de resultados físicos, no terreno, e demostra bons conhecimentos sobre o míssil que empregou muitas vezes. Mas perguntaria eu, até com certo humor, ao general: quem pode opinar com mais precisão sobre o efeito de uma pedrada? O garoto que atira ou aquele que a recebe na cabeça? O sr é o atirador, mas eu sou o alvo! Pelas contas cubanas, foram cerca de 700 mísseis, pela CIA, milhares. Todos concentrados na baixada do Panguila, cujo centro era a ponte, meu ponto de ação. Eu estava lá, não dentro de um abrigo, mas cruzando a ponte, correndo, rastejando, resgatando colegas feridos, avançando, retrocedendo, passando informações, e estou aqui, sem maiores arranhões, resmungando acerca de ineficiência do 122 em causar maiores baixas físicas… Se nossas baixas aparentemente aceitas por ambos os lados foram de aproximadamente 350 homens e usando os números cubanos, teremos o uso de 2 mísseis para cada inimigo atingido, inimigo esse que estava em campo aberto, sem qualquer abrigo! Mantenho minha opinião admitindo porém se não fosse o desmoralizante efeito em Quifangondo, provavelmente Angola hoje estaria, no mínimo, dividida em Angola do Norte e Angola do Sul, tal qual aconteceu com Coreia e Vietnam.

Mas os estrondos dos mísseis 122, na Batalha de Quifangondo, atingiram mortalmente a alma dos nossos combatentes...



Corrigindo sutilmente a história angolana... Na medalha comemorativa dos 40 anos da Batalha de Quifangondo, a União dos Veteranos de Angola, de Moscou, "reconstrói" o monumento erigido no local com mais precisão e justiça : entre os heróis a serem lembrados foi colocado o BM-21!



domingo, 9 de junho de 2013

Falece o Capitão Alves Cardoso, às vésperas do Dia da Raça!

 Pedro Marangoni


 Alves Cardoso

  Oficial

 Alvará da TORRE E ESPADA ao CAPITÃO «COMANDO» ALVES CARDOSO

Considerando de justiça distinguir o Capitão Miliciano de Cavalaria Álvaro Manuel Alves Cardoso, que, por mais de uma vez ganhou justas a considerações por acções em campanha desde 1961; Considerando que na prática de feitos em combate nas províncias de Angola e da Guiné revelou coragem constante em presença do inimigo, alto espírito de sacrifício, decisão, alheamento consciente do perigo, prestigio pessoal sobre as tropas comandadas ou entre os seus camaradas e superiores, virtudes militares estas que o impõem com alto valor moral da Nação; Américo Deus Rodrigues Thomáz, Presidente da República e Grão-Mestre das Ordens Honorificas Portuguesas, faz saber que, nos termos do Decreto-lei n.º 44 721 de 24 de Novembro de 1962, confere ao Capitão Miliciano de Cavalaria Álvaro Manuel Alves Cardoso, sob proposta do Presidente do Conselho, o Grau de Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.
Presidência da República, 24 de Maio de 1972

Visto o acima, não é necessário melhor descrição do Capitão Alves Cardoso,para nós dos Comandos Especiais do ELNA -Exército de Libertação de Angola- o "Major A.C." com quem convivi na Rhodesia, Angola e Espanha. Juntamente com o Coronel Gilberto Santos e Castro escreveu a última página da presença militar portuguesa em África. Porque foi em nome dos valores portugueses, da democracia e da Civilização Ocidental é que lutaram, com a marca de Portugal no Continente Negro: aventura, coragem, altruísmo, ousadia. Estive sob seu comando direto nos combates de Mabubas, Quicabo e Balacende e juntos no jeep do Staff descemos à Lagoa do Panguila ao iniciar-se o avanço do que seria chamado a Batalha de Quifangondo: é nossa vez Pedro,vamos descer. E ao lado de um Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada mergulhei no mais importante embate da guerra civil que determinou os rumos políticos da Angola de hoje. Algumas horas depois foi ferido, evacuado, mas após socorrido retornou à posição.

O Major A.C. faleceu aos 78 anos às 07:15hs da manhã de hoje, 9 de Junho de 2013 no Hospital da Luz, em Lisboa, cercado pelos membros da Associação dos Comandos, um ninho de heróis de ontem e de sempre. Apertou o passo e juntou-se a coluna dos companheiros mortos, Jaime Neves logo à frente, braço levantado no sinal de reunir, Santos e Castro quase no horizonte.
Marchou de cabeça erguida, privilégio de todos os guerreiros portugueses do passado distante e do presente que lutaram para que Portugal permanecesse sempre em pé e longe das ideologias contrárias ao bem estar de seu povo. Formará amanhã na eterna cerimônia do Dia da Raça, ao lado dos outros heróis lusitanos de todos os tempos.
A coluna vai aumentando... Homens que foram criados com histórias de grandes navegadores, aventureiros, guerreiros, Mouzinho, soldado“Milhões”, sob o olhar atento de cidadãos ímpares como Antonio de Oliveira Salazar que colocavam a Pátria acima de seus interesses pessoais, da própria vida e assim orgulhosos dos Homens e da Terra onde nasceram optaram pela espada em sua juventude e se consagraram ao serviço da Nação Portuguesa. O que será da geração atual sem alicerces firmes, sem história, com os nobres feitos apagados dos livros didáticos, sem um sentimento forte de nacionalidade, com a Metrópole e o Ultramar traídos e entregues ao inimigo, com um Portugal sem fronteiras misturado com uma Europa decadente, sem líderes, sem memória? A Frente de Combate se enfraquece...
Santos e Castro olha para trás com aquele seu meio sorriso, mira Jaime Neves, cumprimenta com a cabeça Alves Cardoso e encolhe os ombros como se dissesse: eu bem que avisei... Mas enquanto ainda houver velhos companheiros e discípulos desses Homens como os camaradas que em sentinela acompanharam a partida de um dos Grandes -Capitão Álvaro Manuel Alves Cardoso- ainda há esperanças de levantar hoje de novo o esplendor de Portugal.
Mama Sume!





segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Coronel Santos e Castro e os Comandos Especiais em Angola



Recebi de um amigo português a foto de um busto de bronze que me remeteu ao passado e às lições -e exemplos- de Honra e Glória que me foram repassadas por meu comandante de muitos combates, o homem representado no pedestal em um quartel em Oeiras, Portugal. Tenente Coronel Gilberto Santos e Castro. Um dos fundadores dos Comandos em Portugal, não teve dúvidas em devolver sua farda ao famigerado, traidor e covarde exército dos capitães de abril logo após a Revolução dos Cravos e empenhou-se na luta para tentar livrar as províncias portuguesas em África do jugo do marxismo e da ocupação por russos e cubanos. Tive a honra de lutar ao seu lado. Apesar de sua idade e do posto, trocamos turnos de sentinela no Morro da Cal, quando éramos pouco mais de 20 homens* a segurar a frente norte da guerra civil em Angola, na noite após a Batalha de Quifangondo. Fui um dos dois dentre 156 Comandos Especiais provados na luta, escolhidos para compor seu Staff na Europa e pude partilhar de suas ideias e ensinamentos. Deixo abaixo trechos do prefácio que ele escreveu para meu livro “Angola,comandos especiais contra cubanos” posteriormente atualizado em "A opção pela espada". Nas palavras, poderão sentir sua força:


...Estamos em Agosto de 1975. Um pequeno grupo de portugueses desembarca em Angola para ajudar a impedir a sua entrega ao colonialismo soviético. Eram poucos. Iriam porém, mostrar em valentia sem par e altruísmo sem preço, a vontade de todo o povo real que, perplexo e traumatizado, estava incapaz de reagir à mais aviltante farsa de toda a sua História. Em nome de um povo imaginário e de liberdades paranoicas — aliás tolhidas a cada passo em pesados preços de sangue e de fome — todos assistimos à maior mentira do século: a "independência" de Angola.

O que pensa realmente deste facto trágico o povo português e desgraçadamente o que pensará o povo de Angola? Foi um grupo pequeno que se bateu contra isto tudo. Merecem por isso o respeito e a consideração de todos os portugueses. Por se terem batido e porque se bateram bem. Alguns pagaram cara a sua dádiva. E quando no pequeno cemitério do Ambriz desceram à terra, com toda a população a assistir em religioso silêncio, com as honras devidas e cobertos com a Bandeira Portuguesa, repetia-se apenas o que ao longo dos séculos acontecera. Mais uma vez aquela terra acolhia generoso sangue português. Ali estivemos também, meditando e sentindo mais vontade para continuar.

Eu próprio comandei os combates que os Comandos Especiais travaram contra os cubanos em Angola, durante os meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1975...

Visto à luz da História, os Comandos Especiais eram em número ridiculamente pequeno. Apenas um punhado de homens: pouco mais de uma centena e meia. Vieram de todos os cantos do mundo. Alguns tinham já sido Comandos, ao tempo da sua vida de militares em Angola ou em Moçambique. Vieram espontaneamente. Nada lhes foi oferecido, e eles nenhumas condições impuseram. Claramente lhes foi dito que os Comandos Especiais iriam apenas ser a resposta altiva dum punhado de portugueses à cobardia e à traição dos que entregavam a Pátria às potências estrangeiras. Vieram por sua própria e livre iniciativa, na louca esperança de ainda salvar o nosso povo duma desonra afrontosa e de uma perda irreparável.

Logo no primeiro recrutamento surgiram aqueles que iriam constituir a mais extraordinária, a mais inconcebível, a mais desesperada força militar que alguma vez se propôs fazer frente ao império comunista: 156 homens dispondo de reduzidíssimo armamento, dependendo quase que exclusivamente de si próprios, pois o apoio logístico era praticamente inexistente.

Na realidade a acção desse punhado de homens começou no Verão de 75. O "Verão Quente' de Angola.

No entanto todo o esforço desesperado desses homens que quiseram defender Angola do inimigo soviético se perdeu. Ingloriamente, diga-se. Por vil traição.

Muita gente me tem perguntado por que não entramos em Luanda, quando a imprensa internacional chegou a noticiar que estávamos à vista da cidade no dia 10 de Novembro, precisamente no morro fronteiro ao Cacuaco.

Esses heróis que se chamaram Comandos Especiais fizeram tudo quanto puderam. Lutando com desespero contra o tempo, conseguiram de facto chegar à vista de Luanda antes da data da independência, levando de roldão à sua frente as sucessivas vagas de cubanos que se interpunham entre eles e a capital. Se a tivessem conseguido atingir antes do 11 de Novembro, tê-la-iam tomado, e não seriam as guarnições cubanas, inadaptadas para a guerrilha urbana, numa cidade que desconheciam e temiam, que o poderiam ter impedido.

Mas entraves de toda a ordem condicionaram a ofensiva sobre Luanda, desde o não consentimento de manobras de diversão ou alterações de frente, até ao atrasar sistemático do assalto à cidade na sequência da primeira arrancada que em 48 horas nos levou do Ambriz ao Caxito... para nos quedarmos mais de vinte dias sem gasolina. As pressões que se exerceram sobre Holden Roberto — constantemente mal esclarecido e enganado — no sentido de fazer coincidir o início do assalto com a véspera do dia marcado para a independência, funcionaram deliberadamente para que não entrássemos em Luanda. A artilharia abandonou as posições sem qualquer aviso e exactamente quanto mais dela carecíamos para o assalto ao Morro de Quifangondo o qual, uma vez tomado, abriria o caminho para a cidade em terreno plano e sem obstáculos. Por tudo isto não ocupamos Luanda. Foi-nos retirado o apoio de fogo pesado dos dois obuses de 140, abandonados mais tarde em Ambrizete e transformados em massas de ferro inútil porque as suas guarnições — evacuadas de helicóptero — levaram as culatras...

Ali ficamos sob intenso fogo do inimigo. O barulho da onda de mísseis parecia uma terrível e contínua trovoada. Os Comandos Especiais ficaram colados ao terreno e impedidos de dar resposta.Ali ficou só um punhado de Comandos Especiais no dia 10 de Novembro, véspera do dia fixado para a independência. Tudo havia retirado. Do nosso posto de observação sobranceiro à cidade que não havíamos podido alcançar, vi sair do porto de Luanda a fragata que levava as autoridades portuguesas. Eram quatro horas e meia da tarde do dia 10 de Novembro de 1975.

Os Comandos Especiais olharam o silencioso afastamento daquela fragata que levava no convés apinhado de gente os últimos restos de uma presença de cinco séculos. As lágrimas de raiva e de impotência rolaram pelas faces dos Comandos que o sol de Angola curtira. A fragata lançou ferro no limite das águas costeiras e ali ficou parada até à meia noite. Num arremedo de macabra farsa, à meia noite em ponto, esse navio da Armada Portuguesa iluminou em arco e salvou a terra...Depois, como que num silêncio de vergonha, fez-se ao largo.

Gilberto Santos e Castro


Com dois heróis: o Comando Nelson, morto em combate e o Coronel Santos e Castro.
 Morro dos Asfaltos, Angola.

Em Mabubas, descansando após a conquista de Caxito, com a tripulação da Panhard 90 que seria destruída na Batalha de Quifangondo: Paes (morto), Simões (ferido) e Remédios (ferido e capturado). De Mabubas seguiríamos para a fácil conquista de Quicabo e Balacende, mas perdendo muitos homens numa emboscada nas "Sete Curvas".

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* Atualização, (2017). Foram 26 homens a manter o Morro da Cal, 23 portugueses e 3 brasileiros: eu, e dois gigantes de coragem, bravura em combate, competência e dedicação na luta anti comunista, atuação mantida sob sigilo até agora e já falecidos. Tendo tomado conhecimento que a informação foi desclassificada e tornada disponível para consulta pública, deixo aqui seus nomes em merecida homenagem, já que nesse pobre país são tidos como torturadores covardes(!!!) por sua atuação em cumprimento do dever, debaixo de ordens do Estado, no combate ao mesmo nefasto inimigo que lá em terras africanas enfrentávamos. José Paulo Boneschi e Theobaldo Lisboa. Em meu livro "A opção pela espada", Boneschi é identificado como "Major André" e  Theobaldo é o "Gordo". Dois "covardes" segundo a esquerda brasileira, um, Theobaldo, foi o que placidamente dormiu debaixo da saraivada de mísseis na épica Batalha de Quifangondo enquanto aguardava as ordens de avançar e Boneschi foi um dos poucos que cruzaram a ponte do Panguila debaixo de fogo, embora não fosse seu dever, mas o fez instado pelo sentimento de camaradagem a nós que aos poucos estávamos sendo dizimados logo à frente.

A eles, Boneschi e Theobaldo, e ao Coronel Santos e Castro, Homens que me honraram  com sua amizade e camaradagem debaixo de fogo, meu respeito e minhas homenagens. Foi um privilégio compartilhar com eles momentos únicos, só reservados aos que ousam.

pedro marangoni



Em Ambriz, o brasileiro José Paulo Boneschi (de camuflado) e Alves Cardoso

Ataque à Radio em Luanda, um bombardeio verde-amarelo: Boneschi (em traje civil), Theobaldo
 (com boina vermelha), e eu (ainda vestindo o arnês do paraquedas). Eles prepararam os explosivos; eu lancei.

José Paulo Boneschi

Um trabalho honesto e detalhado sobre esses brasileiros que lutaram ao lado da FNLA é a dissertação acadêmica da jornalista Gisele Lobato, sob o título "O Brasil e a independência de Angola (1975):
política externa oficial e diplomacia militar paralela" CLIQUE (PDF) .